Advogado, você sabe o que é hackathon?

No post sobre Direito e economia criativa, comentei como achava ridículo não haver nenhum tipo de interação mais avançada no mundo jurídico que não fosse palestra ou simpósio. Eis que, dias depois, vejo a OAB/PR anunciando seu hackathon, no dias 15 e 16 de outubro. Minha língua queimou e meu coração parou.

Antes de tudo, para! O que é hackathon? Em linhas bem gerais, é um evento no qual os participantes desenvolvem software com o intuito de gerar um novo produto ou alguma solução para problemas designados pela organização. Como era da OAB, havia problemas relacionados a processos judiciais, controle integrado de obrigações acessórias por advogados e contadores, jurimetria e outros tantos desafios.

Mas não sem um detalhe importante: a solução para essas buchas tem que sair em algumas horas. No caso da OAB, 36. E seguidas! Por conta disso, a partir de agora você vai ler um relato do que foi a nossa aventura nessas horas no último final de semana. Se  não gosta de aventuras e de batata, pare por aqui. Se você se interessa por jornadas nonsense e desventuras em série, venha comigo.

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Baita evento

Primeiro de tudo, é importante dizer que foi o primeiro hackathon jurídico do Brasil! Isso me espantou e surpreendeu positivamente e desde o final de semana venho elogiando a OAB/PR pelo pioneirismo para todos que me perguntam como foi a experiência.

Tanto que, quando descobri o evento, fiquei super empolgado e queria ver como se daria, sentir o ambiente e trocar figurinhas com gente boa. Com isso na cabeça, tentei montar uma equipe e juntar pessoas talentosas e que dessem o que falar no dia.

Como bom ex-aluno de universidade pública, eu não poderia deixar de ter um approach interdisciplinar nessa empreitada. Bem, já que todas as equipes eram obrigadas a ter um advogado e um programador, por que não ousar e chamar gente de outras áreas para contribuir com nossa proposta, certo?

Essa vontade de construir algo verdadeiramente novo e útil com profissionais de diferentes origens moveu a iniciativa desde o começo. Honestamente, era o mínimo que eu poderia fazer depois de passar tantos posts aqui no blog gritando pela conversa do Direito com outros sistemas. E, claro, na melhor das hipóteses representaria uma validação das ideias que tenho por gente de outros campos, que foi o que realmente aconteceu, mas não sem muita ansiedade antes.

Na teoria, seria lindo demais. Só que, na prática, precisamos nos virar nos 30 para fazer acontecer. Tínhamos 4 integrantes confirmados até sexta passada, último dia para inscrição. O problema: nenhum era programador ou desenvolvedor e isso era requisito da organização. Óbvio, né, era um evento de programação. Que desespero! Se não conseguíssemos um profissional dessa área até 18h, teria que ficar para a próxima vez, sem saber se ela aconteceria.

Até que, por uma dessas alegrias da vida, o Rafa Simião indicou um amigo do futebol, que precisei convencer a participar, porque já tinha feito um hackathon no fim de semana anterior e queria tirar o sábado e o domingo para um relax. Ainda bem que ele desistiu dos planos originais e resolveu embarcar na nossa mini liga de super heróis reformados. Pensa numa equipe EQUIPE!

Justamente por termos conseguido essa conexão bacana, faço questão de citar os membros da equipe um a um pois foram guerreiros que viraram a noite. Eis a nossa equipe estelar, por ordem alfabética, para não preterir ninguém: Gabriella, publicitária, Katheriny, artista visual, Paulo, vulgo eu, Rafaela, advogada, e Vinicius, desenvolvedor. Poxa, Vini, você bem que poderia ter um LinkedIn bacana para eu incluir um hyperlink no seu nome, mas já que não rola, vai o da banda! =D

Anyway, acho que dá para entender o que eu quis dizer com multidisciplinaridade agora, né? De toda forma, como não poderíamos nomear o time como quiséssemos, ao nosso foi dado o nome de Equipe Cooper, uma homenagem a Martin Cooper, tido como o pai da telefonia celular. O legal disso foi perceber que ninguém sabia quem era o cara (risos). Na verdade, a gente pensou que era o Sheldon Cooper, mas isso é mero detalhe.

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Bazinga!

O produto que nos propusemos a desenvolver era um banco de dados unificado voltado a advogados, departamentos jurídicos e contadores para controle de dados de clientes, gerando organogramas interativos em tempo real. Falando assim é abstrato demais, mas a ideia fazia sentido quando a pensamos. Juro pra você!

Uma dos aspectos mais legais do evento era que as equipes precisavam montar uma proposta de valor para as soluções apresentadas e colocá-la num canvas. Você se lembra daquela proposta de valor que mencionei em posts passados, como este, este este? Ou seja, não bastava ter um produto altamente tecnológico, ele precisava fazer sentido no mercado. Nesse ponto, ainda bem, tivemos pontuação máxima! S2

Foi lindo ver conhecimentos tão distintos formando algo em conjunto, pessoas tão diferentes unidas buscando superar desafios e realizar algo concreto. Falando assim parece Power Rangers, mas não estou forçando a barra, não. Era sinergia na marra, mas conquistada hora a hora. Só de lembrar já abro um sorriso. 🙂

Conseguimos ainda outros pontos que animaram nossa equipe. Falo das selfies tiradas no evento e que contavam para a validação de notas. Por causa delas acabamos entupindo as nossas redes sociais com fotos. Se alguém se incomodou com tanta beleza junta, por favor, nos perdoe. Mas, na boa, ia ser difícil segurar o orgulho. Até o José Augusto Araújo de Noronha, Presidente da OAB/PR, tirou uma foto conosco. Ou fomos nós que tiramos uma foto com ele? Bem, aí fica a cargo do leitor.

Eventualmente levamos alguns tombos que fizeram nossa pontuação despencar, sobretudo na hora do pitch. Complicado achar que estávamos abalando e que tínhamos feito uma super produção de vídeo para apresentar nossa solução, mas que, na realidade, não era bem assim. Pensa numa queda do cavalo bonita. Ok, caímos, mas caímos de pé. E foi só nesse ponto, tá? ¯\_(ツ)_/¯

Esses erros com certeza nos ensinaram muito mais do que prejudicaram, não custa lembrar. Vou ter que incorporar as lições de humildade, resiliência e comunicabilidade ao meu dia a dia. Quem vê de fora pode pensar que era tudo uma grande brincadeira, mas vá medir o crescimento pessoal de quem participou! Claro que só posso falar por mim, mas  com certeza saí melhor advogado do que quando entrei.

Quer uma prova disso? A cada abordagem de um novo mentor, as equipes precisavam explicar sua ideia, desde o brainstorming, passando pela proposta de valor, até mostrar protótipos do produto. Tanto foi assim que precisei exercitar toda a oratória que nunca aprendi direito, mas talvez tenha até me saído ok. Veja por você.

Preciso destacar a mentoria excepcional, que também foi destaque do evento. Fomos pessoalmente super bem tratados por gente de primeira linha, como a Leticia Gonçalves, da Bureau55, na nossa comunicação, o Valdemiro Kreusch, da Éos, e o Ricardo Dória, da Aldeia Coworking, na montagem do nosso canvas. Profissionais gabaritados e que agiam com zero pompa. Estavam lá para transmitir conhecimento. Demais!

Ao final, o top 3 na premiação definitivamente chamou a atenção, apesar de que, se me coubesse avaliar, teria alterado a ordem no pódio. De toda forma, programas com interfaces elegantes e buscando soluções integradas e avançadas para contingências jurídicas fizeram muito sucesso. Um deles utilizava inclusive a blockchain! Quando iríamos esperar algo assim?

Ficam aqui então os reforçados parabéns à OAB/PR por ter realizado um evento dessa magnitude com tanta abertura a novas ideias e novas tecnologias. Não só a advocacia, que é um reduto tão tradicional da sociedade, mas também o Direito precisam desse ar fresco para colocar as prioridades em ordem. Nós fazemos parte de um mundo maior, em movimento, e precisamos nos lembrar disso.

Foi com muita felicidade que vi advogados, dentre os quais me incluo, sendo arremessados para fora de sua zona de conforto e sendo obrigados a se comunicar com lógica simples. A linguagem baseada no princípio da eventualidade teve de dar lugar à conversa direta e clara. Nunca a verborragia jurídica fora tão colocada na berlinda como dessa vez. Sei que parece exagero, mas não me canso de falar: foi muito bacana!

Ao longo do fim de semana, o formalismo excessivo foi sendo substituído por conversas francas. Advogados, por necessidade ou vontade, desciam de sua torre de marfim e tratavam todos como iguais, todos como detentores de conhecimentos vitais ao projeto como um todo. Nossa dinâmica de cálculo de risco em alguns momentos teve de ser deixada de lado, para que assumíssemos esses mesmos riscos que estamos acostumados a apontar.

Ainda que a advocacia nunca tenha criado uma cultura de inovação em seus quadros, o aceno da OAB nessa direção já é motivo de alegria e, por que não, otimismo, ainda que moderado. Moderado porque mesmo com vagas para 25 equipes, foram inscritas apenas 19, até onde ficamos sabendo, sem contar que uma delas desistiu no meio da corrida.

Outra razão pela qual o otimismo deve ser apenas moderado é que o posicionamento institucional da Ordem era de desenvolver ferramentas que auxiliassem o advogado em processos ou ajudassem a OAB a fiscalizar o exercício irregular da profissão. Nada contra, claro, mas isso acaba impondo limites ao desenvolvimento de soluções verdadeiramente inovadoras.

Além disso, é ao mesmo tempo engraçado e satisfatório verificar que, mesmo num evento em que supostamente deveriam ser montadas soluções que apoiassem o trabalho do advogado, grande parte dos grupos participantes elaborou aplicativos, programas e sistemas que tornam o advogado irrelevante para realização da pretensão de seus clientes.

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Lamentamos informar (nem tanto), mas esse tipo de advogado vai ficar no passado

Mesmo que apresentadas como ferramentas facilitadoras do trabalho do advogado, muitas delas acabam retirando a necessidade de grandes quadros de advogados associados em escritórios, independentemente do porte deles. Soluções tecnológicas dotadas de deep learning reduzem a quantidade de advogados necessários à administração de qualquer carteira de processos, por exemplo.

Os luditas do século XXI que me perdoem, mas não tem jeito. Ainda que a Constituição nos veja como “indispensáveis à administração da Justiça”, no mundo real, somos custo de transação, até que provemos o contrário hehe. Talvez por isso a exigência de uma proposta de valor tenha assustado tanto os advogados de cada equipe.

Expectativas precisam ser alinhadas, sem dúvidas, mas os integrantes da advocacia precisam colocar na cabeça que softwares não virão sempre para ajudar. Pelo contrário, é grande a chance de programas com inteligência artificial um pouco avançada passarem a cortar vagas nos escritórios e departamentos jurídicos num futuro muito próximo.

Quem insistir em enxergar isso como ficção científica pode acabar caindo na real quando perder seu lugar para o ROSS ou mesmo para algum dos aplicativos desenvolvidos no hackathon da OAB. A mentalidade do processo judicial fica um pouco deslocada nesse contexto de rede e necessidade de rápida solução de controvérsias. Tanto é assim que, como disse, grande parte dos aplicativos desenvolvidos ligava o cliente à outra parte, para satisfação imediata de sua pretensão no problema apresentado.

Diante de tudo isso, não consigo não imaginar que quem podia mesmo fazer um hackathon eram a Receita Federal ou a Junta Comercial do Paraná, para ver se conseguem tirar um pouco da inhaca naqueles sistemas imbecis que só complicam o trabalho dos advogados e a vida dos clientes. Agradeço desde já se cogitarem a ideia.

A gente ouve tanto falar em disrupção, mas acaba ficando sem reação quando a enxerga na vida real. Parece que se nega a ver a realidade diante dos olhos. Por mais tentativas que se faça para tentar regular ou modular os efeitos da tecnologia no mercado, inovações vem e mudam o mundo como o conhecemos. Quando isso acontece, dá aquela sensação de “eu quis dizer, você não quis escutar“, sabe?

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Rafaela (esq.), Gabriella, eu, Vinicius e Katheriny

No fim das contas, como se toda a resiliência e a troca de conhecimento não bastassem, a sensação de dever cumprido e a alegria com que deixamos aquele lugar já justificam voltar na próxima! Com o coração leve, mas batendo forte, nunca saí tão realizado de um evento na OAB. Valeu a todos que fizeram parte dessa aventura! Vamos em frente!

Fonte da imagem destacada: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f6/Wikimedia_Hackathon_2013,_Amsterdam_-_Flickr_-_Sebastiaan_ter_Burg_(28).jpg
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