A tecnologia vai exterminar a advocacia?

Depois de uma semana com um conveniente feriado, aqui estamos nós para mais um tête-a-tête comigo vomitando impressões num fluxo de consciência e você rindo e refletindo (se tudo der certo) ou virando os olhos e fechando a aba (dá uma força, vai!).

Sem problemas. Eu sei. É quinta-feira, tivemos um feriado ontem e você não precisa imediatamente ler sobre blockchain, mas sim compensar tarefas atrasados no escritório. Ou não? De qualquer forma, por favor, pare de fingir que está trabalhando e leia este texto. Veja os vídeos e abra os links. Todos eles! Hoje é dia de se emancipar da escravidão mental.

Se, após a leitura, você não tiver um momento “Como enlouquecer seu chefe”, tome o santo daime, um chá de fita ou simplesmente vergonha nessa cara. Só não espere que eu aceite sua decisão de ser exterminado com muita paciência.

Ao que interessa!

Para começar, veja o vídeo abaixo, por favor. Tire aquele fone de ouvido ousado da pasta, vire um pouco o monitor e finja que está imerso(a) no trabalho. Vá por mim: vale muito mais a pena do que ficar apertando F5 para ver se o andamento do Projudi muda.

Se você deu uma joão sem braço e não assistiu, peço novamente que o faça. Caso você insista na negativa, faço um rápido e esburacado resumo da palestra do Don Tapscott no TED, que é sobre blockchain. What?! Isso. Blockchain é um banco de dados distribuído por toda a rede, como um tipo de livro-razão, que serve para transações diretas entre pessoas.

Exemplifico: quer fazer uma remessa de dinheiro ao seu filho no intercâmbio? Use um aplicativo nesse sistema e envie seus dólares para o pimpolho, que receberá na porta de casa. Você economiza a diferença de 18 p.p. a mais que a Western Union te cobraria e o dinheiro está na mão dele horas depois.

Em certo momento de sua fala, o palestrante cita a importância para a blockchain o mito/monstro Hernando de Soto, cujo trabalho ajudou a verificar em países latino-americanos a quantidade de propriedade “morta”, ou seja, sem títulos que permitissem que os direitos relativos à propriedade fossem efetivados.

Sem a possibilidade de garantir um título, esses bens não podiam ser transferidos nem dados em garantia, por exemplo. Com a blockchain, ele seria transferido imediatamente de pessoa para pessoa e seu histórico, imútável e insuscetível ao gosto do cartorário, ficaria disponível a todos.

Como se essa eliminação do intermediário não bastasse, nos minutos finais do vídeo, Don (virou brother já) chama nossa atenção para a mudança nas relações de propriedade intelectual, sobretudo no mercado virtual de conteúdo artístico, em que músicos poderiam realizar a gestão de sua PI sem ter que receber só uma migalha por aquilo que produzem.

Com toda essa revolução debaixo do nariz, não é possível que ainda pensemos no Direito como algo isolado, dadas todas as mudanças que já estão em curso. Amigo ou amiga, querendo ou não the times they are a-changin’. Só para homenagear o Nobel de Literatura do dia hihi 🙂

Vamos deixar isso claro: se os operadores do Direito não se prestam a resolver os problemas das pessoas, as pessoas vão encontrar uma maneira de resolver por conta própria ou, no mínimo, sem a nossa participação. Isso sim é empoderamento!

Aí estão os smart contracts para não me deixarem mentir. Obrigação, adimplemento e execução na mesma unidade criptografada da blockchain. Sem necessitar essencialmente de advogado, cartório ou Poder Judiciário executar garantia. Quer uma definição para isso? Pegue essa da Wikipedia:

Smart contracts are computer protocols that facilitate, verify, or enforce the negotiation or performance of a contract, or that make a contractual clause unnecessary. Smart contracts usually also have a user interface and often emulate the logic of contractual clauses. (…) Smart contracts aim to provide security superior to traditional contract law and to reduce other transaction costs associated with contracting.

Entenda uma coisa: enquanto nosso trabalho se limitar a ser custo, nossos clientes vão fazer de tudo para desenvolver algum conhecimento ou tecnologia (tudo bem que em essência são a mesma coisa, mas enfim…) que reduza ou elimine essa despesa. Ao que tudo indica, finalmente estão conseguindo.

Adeus para nós?

Enquanto o mundo se movimenta em blockchain, ficamos nós aqui falando em Código Comercial e repatriação de recursos. Tenha paciência! Nós já estamos obsoletos.

O jurista está causando a própria extinção e sequer consegue enxergar isso lá do alto do pedestal. Que o Direito é conhecido por normatizar tudo aquilo que a sociedade já realizou, tudo bem. Mas ficando comendo poeira desse jeito fica feio demais para nossa ~ilibada reputação~.

Não precisamos fazer muito esforço nem ir muito longe para verificar como esse fenômeno já está afetando nossa vida, desenvolvendo atividades que antes somente eram realizadas por alguém com a expertise necessária. A própria imprensa local já cobre essas inovações e você fecha os olhos e tampa os ouvidos porque acha que está tudo bem no seu mundinho do ConJur.

A mamata acabou, juventude. Vamos cobrar para revisar contratos simlpes? O LawGeex já faz isso com inteligência artificial, sem precisar esperar o advogado tomar seu café e sentar na frente do computador para fazer o trabalho ou responder aquele e-mail que o cliente já reforçou duas vezes.

No meu caso, sonhava com algo mais específico, voltado ao M&A. Precisava era mesmo de um serviço de software com uma ferramenta de inteligência artificial para avaliar documentos em due diligence para economizar tempo e energia. Pesquiso aqui, pesquiso ali e, com alguma boa vontade, encontro o Diligen. Tudo bem que ainda não funciona no Brasil, mas so much for brainpower, huh?

Falando em due diligence, lembra-se dos smart contracts que mencionei há 42 segundos? Como conciliar a análise de contratos que existem só em algoritmo dentro da blockchain? Eventualmente, precisaremos pensar em novas formas de analisar contratos que fogem à realidade que conhecemos um dia.

O que há de mais interessante nessa mudança de paradigma é a realocação de recursos e a adaptação de serviços e indústrias interdependentes. Tudo isso faz repensar a necessidade de uma série de profissões diante do avanço tecnológico. Se não a necessidade, pelo menos a forma de atuação de cada uma delas. Haja darwinismo digital!

Em recente artigo no Harvard Business Review (sempre ele), Daniel e Richard Susskind, professores da Universidade (seriam irmãos? DESCUBRA!) comentam a imposição que a sistematização de atividades fez para profissões antes tidas como imprescindíveis, tendo em vista o contexto em que nos inserimos cada vez mais:

More fundamentally, once professional knowledge and expertise is systematized, it will then be made available online, often as a chargeable service, sometimes at no cost, and occasionally but increasingly on a commons basis, in the spirit of the open source movement.

Sério mesmo. E você aí achando que não dava para se sentir mais dispensável do que naquela vez em que terminaram com você porque o(a) namorado(a) “precisava se encontrar”. Ih, rapaz!

Sem contencioso, para quem vou falar data venia?!

Fica o questionamento. De que vale o monopólio da capacidade postulatória diante de um contexto em que o eBay, em seu sistema de resolução de disputas online, processa 60 milhões de desentendimentos, três vezes mais do que o sistema judiciário dos EUA. É, jovem, tem que clicar no link que eu disponibilizo e aprender!

Se você disser que isso tudo não nos ameaça no Brasil porque viola a lei usurpando atos privativos do advogado, eu vou te fazer um favor e te ajudar a tirar a cabeça do buraco.

O cliente pouco se importa com a definição do artigo 1º, II, do Estatuto da Advocacia, que só é vaga desse jeito para ampliar ao máximo a esfera de atos para os quais você sempre vai precisar de um advogado (por força de lei, ou em bom português, só porque o legislador te mandou).

Sigamos em frente, de todo modo. Se você não está com paciência para ler outros textos, eu facilito teu trabalho. Veja o vídeo abaixo, em que Dario Gil, Vice-Presidente de Ciência e Soluções da IBM, aborda a relação entre sistemas cognitivos e o futuro da especialização nas atividades humanas.

Como eu sei que você assistiu bonitinho ao vídeo, já posso contar com tua tranquilidade, já que a iminência da substituição dos profissionais pelas máquinas tende a ocorrer nas atividades que não exigem a capacidade de julgar, criar e descobrir.

Por sorte, há certas coisas que, para nós, são fins nelas mesmas e para as quais nós, humanos e não sistemas de inteligência artificial, teremos que fazer escolhas. Admirável mundo velho, não?

Diante dessa reflexão bastante esclarecida do vídeo, pergunto: qual é o conteúdo essencialmente humano – e não formalidade – que oferecemos à sociedade, ao mercado, ao cliente? Qual é o valor que isso tem para o mundo?

– Ah, Paulo, mas ninguém ensina isso na Faculdade de Direito!

(Respira)

Se você não sabe o que é criação de valor, solte seu vade mecum por um segundo e faça um exercício de empatia com as pessoas com que você lida no cotidiano. Você realmente sabe o que elas valorizam ou está tão preso à técnica jurídica que se esqueceu de traduzir o significado de uma decisão judicial para termos mais genéricos?

É evidente que o conhecimento e a desenvoltura com a dogmática são de extrema importância, se a ideia de receber alguma remuneração pelo seu trabalho no futuro te excita, clique aqui, baixe a tabela e cole na sua parede. Olhe bem para o seu negócio. Ele atende àquilo que o cliente valoriza? Não? Então volte duas casas.

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Com quais desses elementos você ajuda seu cliente?

Uma das formas de criar valor é oferecendo um trabalho surpreendente que atenda . O mantra do design thinking que mencionei no post de semanas atrás cai como uma luva nessa. Com isso em mente, quer saber então uma forma de agregar valor à atividade levando em conta as reais necessidades do outro?

Prometo que não vou nem cobrar porque o conteúdo já está disponibilizado na internet aqui. Aqui vai: tipografia. Sim, jovem. Tipografia. Seu cliente não quer Arial. O juiz não quer Arial. Você não quer Arial. Ninguém quer Arial, meu Deus! O que custa criar uma experiência diferente no trabalho que oferecemos? E faço a autocrítica: esta lição também serve para mim.

Pode parecer ingênuo mudar algo “tão pequeno”, mas quem precisa ler os documentos que redigimos agradece. Algumas expectativas das pessoas a quem devemos servir são apreendidas pela simples intuição, só que à medida que tateamos esse novo mundo em que vamos nos afundando, fica muito claro que algo está errado. Algo não, muita coisa.

Antes que você me acuse de ferir os interesses da advocacia, te pego pelo braço e trago outras perguntas. Até que ponto esse pensamento de “classe” de advogados não é só um subterfúgio corporativista?

Historicamente, é justamente essa reserva de mercado que a tecnologia adora destruir sem dó. Táxis? Uber manda beijos. Hotelaria? Airbnb atropelou. Indústria da multa? Robôs que montam defesas vão interpor tantos recursos administrativos que o Poder Público vai precisar moderar a sanha de arrecadar a todo custo.

Nós seremos os próximos se não investirmos na “humanidade” daquilo que fazemos em um mundo virtual, que não se importa com advogados de Rolex brilhante e sapatos tão encerados que refletem nossa cara feia (mentira, para feia ela não serve), mas sim que resolvem problemas reais.

Em 28 de julho deste ano, questionei como poderíamos ser mais ousados no nosso ofício. O problema é que ficarmos parados nessa pergunta vai nos custar o emprego. Precisamos encontrar uma resposta logo e ela não pode bastar apenas para nós. Ela tem que convencer o mundo lá fora.

PS: revisei o texto algumas vezes me perguntando se queria atingir advogados ou quem nos contrata. No fim das contas, são as duas opções. De um lado, nós precisamos nos coçar e aprender a ter um pouco de empatia e, de outro, serve como prestação de contas sobre por que o(a) advogado(a) que você contratou estava tão fora do mundo real. Não é culpa (só) dele(a).

PS2: sinto que o assunto de hoje ainda vai render vários posts. Brace yourselves 😉

Fonte da imagem destacada: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/82/Terminator.JPG
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2 comentários Adicione o seu

  1. Paola disse:

    Perfeito sua colocação. Acredito que a tecnologia veio para somar e acabar com a burocracia cotidiana do direito. Vejo com bons olhos precisamos dar mais efetividade a justiça. Do jeito que é aplicado hoje, principalmente no contencioso, só se vê injustiça, parte que ganha, mas não leva. Juízes que julgam com ego maior do mundo, afogando mais o judiciário com recursos que levam meses para serem julgados. Por aí vai. Porém vejo muito relutância dos advogados. Na educação por exemplo, tanto nas faculdades e cursos de especializações, se prendem muito a forma esquecem do básico o humano e a função da justiça.

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