Pelo jogo ou pela vitória?

Aproveitando que, feliz ou infelizmente, as Olimpíadas da zoeira chegaram ao seu fim, vim eu fazer aquele post para falar tudo que me passou pela cabeça sobre os debates – úteis ou não – que surgiram na mídia nas últimas semanas.

Ok. Talvez não na mídia, só no meu feed do Facebook, o que dá quase na mesma.

Mais uma edição dos Jogos veio com tudo, incluindo atrasos e estouros de orçamento, tirou nossa atenção de outros assuntos e roubou nosso coração. Novamente nos tornamos aquela pachecada que entende tudo sobre as modalidades mais variadas e insossas.

Só que para a grande maioria dos ~entendidos~ de plantão isso não basta, e é aí que o caldo entorna. Isso, claro, sem falar no pessoal dos comentários de notícia de grandes portais, cujas palavras já causam câncer em que as lê.

Esse exército de ~especialistas~, sejam eles comentaristas de canais esportivos, sejam eles aqueles bolhas que nunca participaram de uma disputa na vida, consegue a cada quatro anos produzir em massa argumentos mais furados para o porquê de termos poucas medalhas ou perdermos nesta ou naquela modalidade.

A grande verdade é que sempre colecionamos fracassos retumbantes e sucessos ocasionais que apenas confirmam a regra. Ok. Talvez isso seja carregar nas tintas, mas fato é que de força no esporte passamos longe. Por conta disso, todo mundo vem com uma solução mais mal diagramada do que outra.

Uma das primeiras é sempre a mais óbvia, rasa e simplista. Entupir o Ministério do Esporte de verba. Uma reprodução exata da ideia de que a reserva de 10% do PIB vai automaticamente fazer com que nossos índices de educação melhorem. Mas isso é papo para outra hora. O que quero dizer é que uma lei não cria e nem é garantia de nada.

Não adianta dizer que 100% do orçamento da União, Estado ou Município vai ter que ser destinado a alguma pasta, se não existir um mínimo de planejamento sério. Além do que, evidentemente, ficamos nessa eterna história de que o Estado tem que ser o promotor de tudo que acontece sob o Sol, sem que ninguém enxergue formas diferentes de promover esportes e capitalizar em cima disso.

É nesta hora que venho eu, o chatão, lembrar que a maior potência olímpica da história não tem nem uma pasta específica para o esporte com status de ministério, mas apenas algumas iniciativas sob a rubrica da cultura e educação que servem de estímulo para que escolas e outras instituições invistam em atividades esportivas.

Talvez exista um componente mais cultural do que outra coisa na forma como pensamos o esporte em cada lugar. Pare para pensar: como era o seu desenvolvimento esportivo no colégio?

Tenho quase certeza de que o professor de Educação Física chegava, dividia a turma em duas, dava uma bola e falava pra jogar caçador/queimada. Isso sem contar que a Educação Física era uma matéria como qualquer outra e tinha uma aula de 45/50 minutos, que, quando acabava, você voltava para a sala e ia aprender Bhaskara suado.

Em momento algum havia um incentivo direto para que o aluno se aproximasse de um esporte e viesse a se aperfeiçoar nele. Quando muito, a piazada mais alta ia jogar vôlei, os moleques lisos iam para o futebol e, dependendo da escola, havia um time de handebol um pouco estruturado. As meninas geralmente ficavam num limbo.

Eu, o eterno perdido, sempre fui baixo e perna de pau. Sobrava o quê? Só os esportes que meu pai sempre me incentivou a fazer.

Só fui ter uma noção diferente quando ganhei bolsas de intercâmbio no ensino médio e fui para a Trinity, nos EUA. Lá, não éramos obrigados a ter aulas de Educação Física, mas tínhamos que cumprir três créditos de esportes durante o ano letivo, um por estação. Acabei fazendo cross-country (corrida , indoor soccer (que é um futebol suíço com paredes nas laterais e na linha de meta, ou seja, a bola nunca parava) e condicionamento.

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Estava tão rápido que nem a fotógrafa enquadrou direito…

Resultado disso tudo ou não, até hoje corro e, sem falsa modéstia, até que faço isso bem.

Por que só falei dos EUA? Porque a curta experiência que tive com esportes de uma forma bem pensada foi lá. Além disso, isto aqui é um blog e #nãosouobrigado a tratar de assuntos cientificamente, mas só dar alguns pitacos que julgo importantes e que saem um pouco do lugar comum do debate no Brasil.

E outra: nós, brasileiros, precisamos urgentemente parar com essa mania de nos recusarmos a olhar e entender o que acontece lá fora. Pensar em “ciclos olímpicos” e não em mostrar como o esporte faz bem nas nossas vidas. As pessoas se perdem na cortina de fumaça de tantos atletas terem cargos nas Forças Armadas, mas não param para pensar que são só os atletas de ponta que recebem esse privilégio.

Ok, este tema está longe de ser minha especialidade e o objetivo principal do blog, mas, gente, é só olhar o noticiário e fazer as contas. Além de tudo isso, claro, é muito engraçado ver outra discussão que deriva dos dramas olímpicos, que é a da necessidade de fomento e apoio – estatal ou não – de modalidades insignificantes.

Vejam, leiam e entendam antes de espernear: atletas brilhantes como Marta, Cristiane e Formiga merecem o nosso reconhecimento não só por seus méritos esportivos, mas também pela perseverança com que levaram suas carreiras até hoje, em meio a tantas dificuldades estruturais. Ponto.

Agora também não vai ser por isso que hábitos serão alterados e as pessoas investirão seu tempo e dinheiro na modalidade. Não dá para ser ingênuo.

Por que vôlei feminino tem audiência na TV por assinatura e o futebol das meninas não? Porque, aparentemente, não gera uma receita que justifique o investimento para sua expansão e desenvolvimento. É lógico que as boleiras são guerreiras, mas martírio por martírio não . Essa simbologia não vai injetar dinheiro na engrenagem do esporte. Superem isso.

Mas aí chegam as Olimpíadas a cada quatro anos e nós queremos porque queremos ver medalhas no peito, sem parar para pensar um segundo sequer sobre como que os atletas brasileiros poderiam obtê-las.

É óbvio que adoro ver atletas do meu país subindo no pódio e emocionando muita gente. No entanto, quem é que tem paciência para fazer aquele exercício chato de se colocar no lugar do patrocinador e pensar: quem é que assiste a esse negócio? Quem é que sabe em que time a Marta joga?

Como não tem público nem receita, vão lá as estatais – que quase não têm outros problemas, não é mesmo? – e descem a ripa do patrocínio, sem qualquer planejamento estratégico ou sistêmico. Parem para pensar: nós ainda trabalhamos com FEDERAÇÕES ESTADUAIS de esportes no Brasil. Assim não tem o menor risco de dar certo.

Sinto muito, mas tentar ganhar na raça e no grito pode até funcionar uma vez ou outra, mas não serve como estratégia de fomento ao esporte.

Fonte da imagem destacada: https://c2.staticflickr.com/9/8561/28223337353_a60d89a640_b.jpg
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